Os munícipes da cidade da Beira voltaram a viver momentos dramáticos na madrugada de sábado, 22 meses depois de terem sido assolados pelo ciclone Idai. Desta vez, quatro pessoas morreram, de acordo com a edilidade.

Os efeitos do “Eloise” começaram a fazer-se sentir na tarde de sexta-feira: houve muita chuva e ventos com velocidades acima de 50 quilómetros por hora. A intensidade aumentou e atingiu o pico pela madrugada, cerca de 140 quilómetros por hora. O ciclone Idai atingiu a cidade da Beira a uma velocidade de 230 quilómetros por hora.

Dados preliminares do município da Beira apontam para quatro mortos, entre eles uma criança de seis anos de idade e uma anciã. As vítimas encontraram a morte quando as paredes das suas casas, construídas na base de material local, desabaram.

A anciã, segundo a filha, recusou abandonar a casa erguida à base de paus e barro. “Pedi, várias vezes, à minha mãe e até cheguei a rogar para ela abandonar a sua casa e passar a noite com os meus filhos e marido. Ela recusou. Ficou chateada comigo. Acabámos por ficar conformados com o seu posicionamento mas, infelizmente, na manhã de sábado ela estava entre os escombros e sem vida”, lamentou Lurdes Camacho, filha da finada.

Os ventos não pouparam igualmente algumas residências, mesmo as de construção convencional, cujos tectos foram arrancados e projectados para uma distância de mais de um quilómetro. Este domingo, os proprietários dedicaram o tempo para recuperar as suas chapas de zinco.

Na cidade cimento, o ciclone tropical “Eloise” não poupou várias infra-estruturas: é o caso do Centro de Saúde da Ponta-Gêa, cujo tecto ficou destruído, apesar da reabilitação de que beneficiou há seis meses, após ter sido arrasado pelo ciclone Idai.

Em diferentes artérias da capital de Sofala, os vestígios da passagem do ciclone tropical “Eloise” saltam às vistas. Vários ramos de árvores foram arrancados. Aliás, árvores, algumas de grande porte, foram derrubadas e condicionam a circulação de pessoas e bens.

Na marginal, a força dos ventos removeu grandes quantidades de areia que os munícipes estão a aproveitar para vários fins.

Na Praia Nova, um dos bairros mais vulneráveis a intempéries na cidade da Beira, centenas de moradores pernoitaram em várias escolas. Só assim escaparam da fúria da natureza. Na manhã deste sábado, citadinos dirigiram-se às suas casas para ver se alguma coisa restou e tentar recomeçar a vida.

Os estragos provocados teriam sido maiores se os munícipes tivessem ignorado as recomendações das autoridades, nomeadamente reforçar as coberturas das casas com sacos contendo areia, colocar contraplacados nas portas e janelas e permanecer em locais seguros. Foi o que se viu, todos os moradores das zonas de risco pernoitaram em escolas e só retornaram às suas casas na manhã do dia seguinte.

Além de destruição e inundações, o mau tempo originou corte de comunicações na cidade da Beira e em alguns distritos de Sofala, à semelhança do que aconteceu aquando do ciclone Idai.

A Vodacom disse que o “Eloise” afectou os serviços de voz e dados. Contudo, equipas estavam no terreno com vista a resolver o problema. Trabalhos em cursos serão extensivos a outras províncias, como Zambézia, assolados pela tempestade.

A Tmcel informou também que já efectuou a reposição de comunicações de voz, dados e internet na cidade da Beira, cujas infra-estruturas haviam sido destruídas, durante a madrugada de sábado. “Podemos considerar que as comunicações da Tmcel foram repostas na sua generalidade ao nível da província de Sofala, mas poderão persistir algumas anomalias que iremos corrigir ao longo do dia”, disse a instituição, acrescentando estarem igualmente operacionais as linhas de Chimoio e Tete.

“ELOISE” AFUNDA TRÊS EMBARCAÇÕES INDUSTRIAIS DE PESCA NA BEIRA

Uma semana antes do ciclone tropical “Eloise”, os gestores do Porto de Pesca da Beira reuniram com todos os armadores nacionais, estrangeiros e definiram a melhor estratégia para evitar danos humanos e materiais. Foi decidido que se devia retirar todos os barcos do cais para locais seguros.

Entretanto, tripulantes de três barcos industriais de pesca que pertencem a uma empresa taiwanesa enganaram as autoridades, simulando que estavam a sair do cais. Afinal, eles permaneceram no Porto de Pesca até a altura em que o “Eloise” começou a fazer estragos e afundaram.

De acordo com uma testemunha, durante os fortes ventos, as embarcações em referência foram, por diversas vezes, arremessadas contra o cais do Porto de Pesca e quebraram todas as barreiras. Parte dos seus cascos ficou quebrada e a água do mar começou a penetrar, o que fez com que os barcos afundassem.

António Remédio, director do Porto da Beira, não tem dúvidas de que houve negligência por parte dos pescadores taiwaneses, pois desacataram as orientações das autoridades portuárias.

“Eles serão responsabilizados pelos danos criados à infra-estrutura do porto e chamados atenção para remover urgentemente os barcos. É que se estes barcos permanecerem nos locais onde afundaram, por muito tempo, irão condicionar a atracagem de embarcações contendo pescado para descarregar no Porto de Pesca. Hoje (domingo) vamos manter o segundo encontro com os taiwaneses e seus representantes no país, no sentido de podermos resolver o problema urgentemente”, indicou o director do porto.

“ELOISE” E INUNDAÇÕES

Os fortes ventos, que se fizeram sentir por cerca de nove horas na Beira, foram acompanhados de intensas chuvas que inundaram vários bairros. Há dezenas de casas alagadas em vários bairros e muitos bens destruídos, incluindo plantações.

Aliás, há uma semana, dezenas de munícipes residentes em zonas de risco que já tinham abandonado as suas casas, construídas em áreas agora inundadas, o Estado do saneamento do meio deteriorou-se ainda mais na Beira. Até este domingo, havia habitações cuja água chega a uma altura de um metro no interior. Várias famílias prepararam alimentos sobre as mesas ou outros objectos improvisados.

Ao longo de várias rodovias dos bairros suburbanos, nos últimos dois dias inúmeras famílias aproveitaram a parte alta das estradas para aliviarem os seus pés. “Há dois dias que vivemos como animais aquáticos, pois não há espaço seco dentro e fora das nossas casas. Os nossos pés ficaram permanentemente mergulhados na água e na estrada estamos a tentar relaxar. É um cenário dramático que estamos a enfrentar. Pedimos ajuda a quem puder nos apoiar”, pediu Catarina Rafael, líder comunitária do bairro de Muchatazina.

SOLUÇÕES DEFINITIVAS

O edil da Beira, Daviz Simango, reconheceu que parte dos beirenses está a viver momentos dramáticos. “As mudanças climáticas estão a condicionar o nível de vida de inúmeras famílias. Os ciclones e as chuvas intensas são um desafio. Um desafio complicado, pois, exige de nós, como edilidade, investimentos ousados para a construção de mais valas de drenagem e construções resilientes por parte dos munícipes”, afirmou Daviz Simango.

As “casas resilientes exigem igualmente grandes investimentos, mas infelizmente a população não tem capacidade financeira para tal, daí que idealizamos o projecto de construção de cinco mil casas resilientes no bairro de Maraza, como forma de minimizar o impacto das mudanças climáticas”, explicou o edil.

Simango terminou exortando aos munícipes a manterem-se atentos às informações atinentes à presente época ciclónica. Ela vai de Novembro a Abril. “Por favor, mantenham os sacos contendo areia por cima das coberturas das casas pelo menos até Abril. Sempre que for anunciada” a ocorrência de “mais um ciclone, por favor, reforcem a segurança das casas e encontrem abrigos seguros”.

Parte considerável da cidade da Beira está sem corrente eléctrica desde a madrugada de sábado e há bairros desprovidos de energia desde a tarde da passada sexta-feira, em consequência da destruição, pelo ciclone “Eloise”, de material de transporte para diferentes zona.

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