"Simango era um homem íntegro que não se comparava. em termos de coerência no discurso e na conduta moral a muitos dirigentes da Frelimo e de Africa", defende Alberto Sithole, que acrescenta: "Embora passasse mais tempo em Dar es'Salam por inerência de serviços, Simango vivia em Mbeya numa casa modesta, e tinha uma família exemplar. Ajudou África a libertar-se. Por varias vezes ajudou o próprio presidente tanzaniano a superar crises no seio da TANU e do próprio governo tanzaniano.

A sua liquidação física foi um ato de cobardia. Foi isso que me veio à cabeça quando tomei conhecimento de que o haviam morto. Cobardia, não conseguiam enfrentá-lo num processo justo, entenderam matá-lo para se livrarem dele. Isso é cobardia. Esse homem não era tão pequeno como tentam reduzi-lo.

Era um homem de estatura baixa, sim senhor, mas grande de coração e nos seus atos. Ele olhava para todos da mesma maneira. Era um homem universal. Em nenhum momento tentou juntar gente da sua tribo para planificar a dominação de outros. Era uma simbiose de culturas e dificilmente se identificava com um único grupo de pessoas.

Veja, por exemplo: Quando começaram a chegar à Tanzânia alguns zirnbabweanos, sul africanos e malawinnos de Chipembere, alguns confundiam-no. julgavam que se tratava de um conterrâneo deles. Falava tão bem com eles em inglês, shona, zulo e nyanja, como se estivesse a falar na sua língua materna. Teve a vantagem de viver no sul de Moçambique e na Rodésia onde, para além de shona que quase é idêntico ao xindau viveu com ndebeles cuja língua se assemelha ao zulo.

Poucos sabiam, mas ele falava também o ndebele. Muitos o admiravam por isso. Penso que é por isso que outros começaram a temé-lo. Não entendiam como é que aquele homem falava tantas línguas desta zona de África. Os da sua tribo que tentavam aliciá-lo para entrar em conspirações sabem como eram escorraçados por Simango. Era um grande homem. Eu sou acadêmico e Mondlane também era.

Mas ha uma coisa que todos os que conheceram Mondlane e Simango se lembram bem. Apesar de Mondlane ter sido um acadêmico não era urn homem de retórica como o Simango. Simango cativava quando falava. Era um líder à medida daquela revolução.

"Lembro-me de um comício num campo de futebol em Dar es-Salarn por ocasião dos festejos do Uhuru na Tanzânia. O campo estava repleto de uma multidão delirante. O presidente tanzaniano, depois do seu habitual discurso por ocasião da data, foi apresentando os dirtgentes dos movimentos da zona austral que estavam presentes. Quando chegou a vez da Frelimo, primeiro apresentou Mondlane que tentou, de forma frouxa, improvisar um discurso em inglês ern poucos minutos.

A multidão ficou passiva. A seguir Nyerere apresentou Símango pedindo-lhe para que não se alongasse muito nas palavras que iria proferir. Ele sabia que esse homem quando falava, falava mesmo. A situação complicou-se porque Simango depoís de dar vivas por ocasião da data fez uma pausa e, de segaida, perguntou a multidão: 'Querem me ouvir em Inglês ou em Swahili?' Foi o unico daqueles que foram apresentados que perguntou isso. A multidão gritou delirante, de braços levantados, Swahíliii!...

O pouco tempo sugerido por Nyerere transformou-se em cerca de 10 minutos, com uma multidão freneticamente delirante. É esse o homem que mataram e hoje pintam-no com os tons dos mais escuros" .

Um jornalista moçambicano, depois de ter ouvido tanta coisa desabonatória a respeito de Uria Simango, viria a ter a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente em 1976, a quando da digressão de jornalistas ao Niassa referida nas primeiras páginas da primeira parte deste livro. O que pensa hoje esse jornalista?

"Quando me perguntas o que penso hoje desse homem, obrigas-me a refletir. Sinceramente, a avaliação que faço é que mataram um Homem no verdadeiro sentido da palavra. Ele era muito num só. Eu e alguns jornalistas nacionais daquela época, que tivemos a oportunidade de com ele falarmos no Centro onde estava detido, ficamos simplesmente boquiabertos. A primeira impressão com que fiquei quando o vi e ouvi o que saia da boca dele, foi que estávamos perante um líder carismático que fazia sombra a muitos na Frelimo e era um grande empecilho para alguns fins inconfessos. Falava bem o português e o inglês e tinha uma capacidade de retórica formidável. Um homem muito lúcido para aquela época em que a maioria de nós vivia mergulhada na cegueira da revolução socialista que nem sequer conhecíamos. Eu, pessoalmente, nunca pensei que viessem a matá-lo. Estava convencido de que reeducação era recuperar uma pessoa e aquele homem estava a ser recuperado para depois vir a servir o país".

Hoje, passados que foram mais de 30 anos, a opinião de ex-combatentes da libertação nacional e outros que privaram com Uria Timóteo Simango divergem. Mas nota saliente é que a maioria é da opinião de que Simango era um homem de caráter, apenas vítima de excessiva bondade por sua parte e do maquiavelismo de um grupo bem coeso.

“Era padre demais para aquilo. Ele não viu que a Bíblia não era chamada para aquilo. Quando iniciaram as confusões os que o apoiavam de corpo e alma abandonaram a organização como teste para mais tarde se ver quem tinha razão. Em 1970 quando o contatamos fora de Tanzânia após a sua expulsão da Frelimo, já admitia que falhou na sua avaliação a Mondlane”.

"Simango não foi dirigente de gabinete como muitos pensam. Fazia longas marchas pelo mato adentro de Moçambique, ficando várias vezes semanas dormindo ao relento, indo a lado com os guerrilheiros. Era um homem íntegro, com idéias próprias. Você pergunta-me se houve alguém da sua etnia que o traiu? Eu sou ndau e sei que alguns dizem que ele foi traído pelos seus irmãos da tribo ndau porque alguns ndaus ficaram no poder, apesar de nenhum deles ter tido algum poder de decisão.

Eu não concordo com a idéia de Simango ter sido traído. Pode ter havido um ndau que tenha traído outro ndau, como foi o caso que provocou a morte de Nungu. Todos nós que estávamos la naquela época sabemos disso. Mas Simango não foi traído por nenhum ndau. Foi traído, mas pelo destino. A uma determinada altura, quando muitos de nós nos apercebemos de que havia reuniões clandestinas de conspiração, também começamos a pensar em reagir, conspirando também.

Destacamos alguns velhos de Sofala como o Dhlakama, Fenias, Solomoni, Mungaka e mais um ou dois de cujos nomes nao me lembro. Nungu fez parte do grupo. Escolhemos esses porque pensávamos que sendo conterrâneos de Simango, e alguns deles mais velhos, ele poderia ouvi-los e assim convencer-se de que era preciso mudar de atitudes naquela süuação de guerra. Ele recebeu-os. Só que aqueles velhos voltaram frustrados.

Disseram-nos que Simango lhes havia dito que ao nível da direção da Frelimo não havia problemas nenhuns. Que eles, portanto aqueles velhos, é que estavam a inventar problemas onde não havia problemas. Quer dizer, Simango fazia-nos de parvos. Nós víamos os problemas e ele dizia que não havia problemas. Barafustou com aqueles velhos e disse que 'vocês devern trabalhar nos vossos postos e não andar a meterem-se em intrigas', etc; etc. Que 'era preciso confiar nas pessoas porque havi.a espaço para todos na Frelimo e em Moçambique'.

Fenias, que era até amigo de infancia de Simango, aborreceu-se e abandonou a Frelimo indo para o Kênia. Depois do encontro com Simango, o velho Fenias quase que se batia socos com Nungu, porque Nungu, de repente começou a posicionar-se do lado de Simango. O que é que podíamos fazer? Os outros se entendiam e nós falávamos de unidade, num sítio onde o discurso, na verdade não passava de fachada para o inglês ver!... Penso que mesmo na tumba, se é que as almas vivem de fato, Simango deve lembrar-se disso. ".

"Eu conheci Simango apesar de tudo ele não deixou de ser o homem revolucionário que era. Entendes não é? Houve muitos problemas que eram contra a sua maneira de ser. Ele era Pastor, sabes. ’’

"Estes canalhas que estão no poder hoje em Moçambique não tinham experiência social e a maioria aprendeu a falar para multidões através de Simango. Simango tinha experiência social porque era Pastor e era muito eloqüente. As pessoas ouviam-no. Não quis ser violento, apesar de ter tido tudo nas mãos para sê-Io. O azar dele foi não ter nascido na casta dos regionalistas".

"Era uma pessoa sensata compreensiva e empreendedora. O que lhe fez publicar o Glaomy Süuatinn foram os problemas que existiam e, sobretudo o sistemático plano de o destruir. Ele percebeu que havia um plano muito serio de o destruir. E muito estava enganado, só não viu quem na quis. Qual a razão da manobra do triunvirato, por exemplo? Depois da morte de Mondlane, ele é que era o presidente porque havia sido eleito por um Congresso. Que se procurasse um vice-presidente para lhe adjurar até que um novo Congresso os confirmasse, isso sim, era o que muitos esperavam!",

Dizer que foi por falta de apoio que Simango não tomou o Poder não é verdade. O problema da disputa de poder numa situação em que o manejo de armas de fogo é que conta, é muito complicado.

A arma de fogo é uma força bruta, nem sempre representa a força da razão. Naquela altura, para tomar a direção, bastava que m grupo pequeno de indivíduos, mesmo sem o apoio da maioria, soubesse manejar as armas e fosse esperto e bem maquiavélico. Os outros tinham que se sujeitar, porque esse grupo tinha força e intimidava tudo e todos. Penso que foi esse problema.

Depois havia outro aspecto que é preciso tomar em consideração. Numa situação daquelas, em que a maioria se sentia intimidada por um pequeno grupo, surgia o velho dilema: Quem põe o guiso ao gato? Embora existissem muitos ratos dispostos a pôr o guiso ao gato, o problema naquela situação era.

Que esses ratos queriam que tudo fosse feito com o conhecimento do chefe em que eles depositavam confiança. Essa estratégia era legítima para que em caso de problemas o chefe os defendesse e até justificasse a razão por que permitira que. se fizesse aquilo. E o chefe, neste caso o Simango, nao queria guiso para gato nenhum. Aquele que o fizesse sem o aval do chefe seria condenado pelo próprio chefe. O que fazer, então, numa situação dessasas pessoas tinha de se sujeitar. ’’

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